Uma maçã por um dente

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Muitas crianças aprontam travessuras por ai, claro que eu aprontei as minhas quando era um pequeno gafanhoto,  mas há certos limites que não compreendemos, ser criança é isso, tão ativo que nem passa em nossa cabeça pensar milésimos antes de qualquer ação, mesmo que a chance seja alta para se machucar.

Certa vez, estava com muita fome e tédio, não sabia o que fazer direito, a geladeira estava tão vazia que poderia dormir naquele frio calmo,  minha mãe não tinha voltado do supermercado, não queria esperar, desejava mastigar algo, encher minha pança de coisas gostosas e sentir saciado por uma hora e depois voltar ao ciclo eterno de uma alimentação totalmente desbalanceado mas incrivelmente deliciosa. Encontrei duas míseras maçãs, pensei comigo mesmo: hora, essa maçãzinha talvez de para matar á fome por uns 30 minutos, quem sabe, era apetitosa, graúda, vermelha forte, como a da Branca de Neve, porém não havia veneno algum, iniciava-se o processo químico, meu olhos brilharam, minha boca se encheu de saliva, passei a língua entre os lábios secos rechonchudos, minha presa estava pronta para ser dilacerada, a seiva doce dos deuses correria sob minha garganta, mas a primeira mordida veio com lágrimas de dor.

Ao cravar meus pequeninos dentes superiores de leite, um deles se rompeu diante da tentativa falha de extrair parte da suculenta maçã, o magma vermelho quente escorreu sobre minha boca, uma dor súbita invadiu minha gengiva.   

Lagrimas, dor e engasgo ao mesmo tempo, nunca achei que perderia um dente desta forma, tão ridículo tentando comer uma maçã estúpida, lavei a boca até parar de sangrar, quando minha mãe chegou, viu a nova janelinha que acabará de brotar sobre meus dentes, ela riu de mim, achou fofo, alertou que mais dentes ainda iriam cair, mas não falara nada sobre a dor, era algo que deveria aprender sozinho.

Me disse para guardar meu dente debaixo do travesseiro, ao acordar no dia seguinte a fada dos dentes iria deixar uma moedinha em troca de superar a dor e o choro. Fiquei encarando aquele pedaço de mim, uma joia extraída e esculpida pela formação ainda em processo, lembrei da dor, meu rosto se fechou e joguei aquele mísero dente no vaso com uma descarga brutal, fora uma noite sem fantasia.    

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